Ora, sendo que este ano foi marcado pela eleição de António de Oliveira Salazar, como o maior português de todos os tempos; e que a nossa euforia consumista/natalícia já está mais morta que eu, resolvi deixar uma nota reflexiva....
Espero que gostem tanto como eu.
"Não esquecerei"
A rua ruidosa todos os dias da semana
um vendedor apregoa a maravilha
(não vejo o que seja. Talvez um brinquedo mecânico)
Presumo que o padre prega na igreja bem perto
(ao seu deus ignotus, não ao rapaz aqui onde me encontro)
Mulheres passam batendo com as chinelas na calçada
(os santos que me perdoem os maus pensamentos: gosto daquelas pernas que suponho bem torneadas, morenas e enrijadas pelo trabalho)
Senhores de gravata conduzem pela trela
pensamentos reservados.
Hoje choveu, amanhã talvez não. Verei o sol
pela luz no quadrado da janela
(Baço o vidro. A grade eriça os dentes.)
Hoje sonhei que corria, contra o vento, os cabelos desgrenhados,
abria um caminho com os pés descalços
entre trigo louro e ranchos de papoilas.
Minha mãe, que é viva, sorria pouco; meu pai comia silencioso.
Oiço passos no corredor, aqueles já os conheço,
amanhã serão de outro, mais duros, existem homens de calcário
e homens de granito.
E eu? Sou feito de quê? Não falei.
«

ertence ou não pertence? Nós sabemos que pertence! Basta confirmar e sai já hoje!»
Não sei quem sou. Sou aquele que hoje se esqueceu do nome dele, dos seus amigos, dos seus camaradas. A minha memória é assim, vai e não volta.
Se sair, quando sair, ela volta, juro que ela volta.
Mais forte e viva do que antes.
Hoje percorro a cela tantas vezes quantas a terra rebola
conto os passos, acelero,
hoje pretendo bater o meu recorde.
Fiz-me artista, mestre, especialista, fui atleta, ora essa!
Três, quatro! Quatro passadas e já está!
Hoje vou alcançar o máximo: três passadas!
Comigo ninguém brinca, quando não quero brincar,
levo mesmo a sério estas coisas.
O gajo espreita pela viseira da porta, puta que o pariu,
só paro quando me apetecer. Sou livre.
Uma criança chora na rua, oiço a mãe a bater-lhe «Cala-te!»
Ora é assim que eles se formam. A criança continua a chorar.
Quando me batem, eu mais calo.
Um dia, amanhã, depois de amanhã, quando correr no campo de papoilas,
eu desato a falar.
Aqui não, jamais. Aqui calo e minto sem vergonha nenhuma.
O meu pai que me julgue, a minha mãe que me abrace.
Passem um bom natal! Eu cá me fico.
Tenho vinte e um anos e um destino à minha espera.
Feliz natal mulheres que bateis as chinelas!
Feliz natal senhores de fato e trela!
Feliz natal criança que choras!
Tu, carcereiro, vai pró inferno!
Tu, torcionário, que um autocarro te esmague os ossos!
Vós todos, cloacas imundas, ré

teis que nem perdão pedis
pelos vossos pecados nas missas dominicais,
Dejectos do mesmo povo donde vim,
um dia julgar-vos-ei
sem dó nem piedade
juro nesta noite de natal
vinte e um anos acabados de fazer.
Nozes Pires
(Nos calabouços da PIDE, numa noite de Natal)
E pronto...Salazar foi efectivamente...um grande português.
Feliz 2008.